Estudo bíblico de Gênesis 1-11.
Paróquia Divino Salvador – Arquidiocese de Campinas.
12 de Setembro de 2007
Prof. Dr. Donizete Scardelai
Criação: um estudo sobre Gn 1-2.
As alusões históricas em Gn 1-11.
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Os principais símbolos de esperança nos textos de Gn 1-11.
· Simboliza a caminhada de Israel e das comunidades judaicas após o Exílio. “Criação em sete dias”: Santidade do Sábado.
· Simboliza a humanidade: Celebra a descendência de Adão.
· Linguagem em forma de conflitos que remetem à história da libertação dos hebreus do Egito: Éden, Cain e Abel, Dilúvio, Babel.
· Uso litúrgico: Houve tarde e manhã... Deus viu que era bom...
Breve introdução ao Pentateuco.
“Os onze primeiros capítulos da Bíblia condensam reflexões milenares acerca do universo e do homem. Não são ‘história’ na acepção usual do termo, nem pretendem suprir às que se interrogam sobre as origens do universo, da terra ou do ser humano. Representam, isto sim, um olhar ao homem e a seu mundo a partir de posições eminentemente religiosas. A linguagem e os episódios trazem, em larga medida, a marca de antigos mitos do Egito, da Mesopotâmia e de Canaã, das cosmogonias[1] e antropologias de suas tradições religiosas. A seqüência `criação do mundo – criação do homem – iniciativas da humanidade, genealogias, transgressões, castigos – dilúvio – nova ordem da humanidade` provém de algumas narrações mesopotâmicas nas quais o conjunto dos onze capítulos se inspirou.
No entanto, sua colocação na Bíblia e em Gênesis esclarece outros aspectos não menos importantes. Os onze primeiros capítulos de Gênesis são um prolongamento das tradições patriarcais (cap. 12-50). Deste modo, dois itinerários da humanidade são contrapostos. Um deles viu-se impulsionado pelo afã desmedido de igualar-se a Deus, semeado de maldições e ruptura de relações, que começou no jardim do Éden e continuou com os episódios de Caim e Abel, do dilúvio e da torre de Babel. O outro foi iniciado pelo Senhor com o chamado dirigido ao primeiro dos patriarcas, com a intenção de reunir a humanidade dispersa, livrá-la das maldições e orientá-la para o caminho das bênçãos e das promessas” (Jesus Garcia RECIO, “Gênesis 1-11 e Mesopotâmia”. In: Felix Garcia LOPEZ, org. O Pentateuco. Paulinas, 1998. p. 10).
O Pentateuco é uma “Leitura Teológica da História de Israel”.
Do ponto de vista temático, esses cinco livros se encontram organizados de maneira bem harmônica, percorrendo os momentos mais significativos da formação sócio-religiosa do povo de Israel.
· Começa com a “Criação do universo” (Gn 1) e termina com a “Morte de Moisés” (Dt 34).
· O ciclo das origens (Gn 1-11) trata dos primórdios da humanidade no universo criado por Deus. Caracteriza-se por uma seqüência da menção de maldição cinco vezes:
“A CRIAÇÃO DO HOMEM E DA MULHER”.
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Gênesis 1,26-27. 26“Deus disse: ‘Façamos o homem (=Adam) à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra’. 27Deus criou o homem (Adam) à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem (macho) e mulher (fêmea) ele os criou”. |
Gênesis 2,7.22-23. 7“Então Iahweh Deus modelou o homem (Adam) com a argila do solo (adamah), insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem (Adam) se tornou um ser vivente [...] 22Depois, da costela que tirara do homem (Adam), Iahweh Deus modelou uma mulher (Ishá) e a trouxe ao homem (Adam). 23Então o homem (Adam) exclamou: ‘Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Ela será chamada mulher (Ishá =esposa), porque foi tirada do homem (Ish = esposo)”. |
Obs: entre parênteses estão as traduções dos termos mais próximos ao hebraico.
n Gn 1,26: Adam = homem é criado como “Imagem de Deus”.
n Gn 2,7: Adam = homem, criado do barro (Adamáh), não é o mesmo que está em 1,26.
n O Homem (Adam) se origina do Solo (adamáh).
Homem (Adão) e Mulher (Hawah).
n A Bíblia Hebraica só emprega Adam para se referir a ‘homem’ (de Gn 1,26 até 5,5) e Isháh para ‘mulher’ (a partir de 2,22). Hawah (‘mãe dos viventes’ = de ‘hayah’, viver) ocorre a partir de 3,20.
n A Bíblia Grega emprega o termo hebraico Adam em dois sentidos distintos:
1. – GERAL: Homem (de Gn 1,26 até 4,2), e Mulher (de Gn 2,22 até Gn 3,19).
2. – PARTICULAR: Adão (usado apenas de Gn 4,25 até 5,5), e Eva (que aparece apenas em Gn 3,20).
Síntese.
Encontramos no Gênesis dois relatos da CRIAÇÃO do homem/mulher. São histórias diferentes que se completam e que precisam ser corretamente entendidas dentro da lógica de cada teologia:
1- “Deus criou o homem (Adam) à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem (macho) e mulher (fêmea) ele os criou” (Gn 1,27).
2- “Depois, da costela que tirara do homem (Adam), Iahweh modelou uma mulher e a trouxe ao homem. Então o homem exclamou: ‘Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Ela será chamada MULHER (esposa = Ishá), porque foi tirado do HOMEM (esposo = Ish)” (Gn 2,22-23).
Esses ‘relatos’ começaram a ser escritos durante e depois do Exílio da Babilônia (séc. VI-V aC). São narrativas dominadas pelo universo simbólico, trazendo uma linguagem singular sobre fatos que se repetem e se atualizam na história humana. Temos algo muito próximo do mito:
“O mito consiste em tomarmos uma grande questão que trazemos em nós e a projetamos, na forma de história, num mundo irreal, num tempo de antes do tempo, o dos deuses, quando o homem ainda não existia. Esta história dos deuses é a nossa, transposta. Ela se torna, então, o modelo que o homem deve copiar.... As histórias míticas são, portanto, extremamente sérias: elas são a primeira reflexão da humanidade. É compreensível que a Bíblia tenha usado esta linguagem para exprimir a sua própria reflexão; mas ela a transformou profundamente. Em resumo, poderíamos dizer que de uma fotonovela ela fez uma novela psicológica... Ele põe em cena um casal vivendo as alegrias e as dificuldades, etc... Inspirando-se nesses grandes mitos, especialmente nas narrações da criação, a Bíblia os retoma em função de sua fé num Deus único, que intervém em nossa história e que quer que o homem seja livre”[2].
“O que é o Sábado (Schabat)” (Gn 2,2).
n Símbolo de liberdade, pois através dele Deus mostra que o trabalho não deve se transformar em fonte de escravidão e que nenhum ser humano foi criado para ser escravo.
n O criador também “descansou”, cessou, parou, após ‘concluir’ a obra da criação: O descanso é contrário à exploração.
n O Sábado é um dom de Deus ao povo de Israel e serve para celebrar a libertação do povo hebreu da escravidão do Egito. Ver o contexto de Ex 16,29.
n O Sábado celebra o encontro do ser humano com seu Criador.
n Condição social: Os babilônios impunham as atividades sem nenhuma preocupação em promover os dias de festa e o descanso. O ritmo da semana, ao contrário, permitiu ao povo judeu redimensionar a criação dentro do plano divino.
Os povos da Mesopotâmia[3] elaboraram várias narrativas como forma de explicar as origens do mundo. As narrativas sobre deuses e suas ações no mundo humano tinham papel ativo na compreensão da ordem do mundo. Era comum pensar numa força suprema em paralelo com as ações humanas. Os mitos babilônicos (Mesopotâmia - cerca de 1800 aC) trazem a idéia de que deus instalou o céu e a terra, e nele colocou o primeiro ser vivente.
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Criação no homem (Gn 1,26 – 2,22).
“126Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar [...]. 26Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou [...] 28Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a [...].
27Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente... |
Epopéia de Atra-Hasis.“Quando os deuses, à maneira dos homens, trabalhavam e labutavam, a labuta dos deuses era grande, pesado o seu trabalho [...].
Que seja morto um deus, que todos os deuses se purifiquem no seu sangue! Que, com a sua carne e o seu sangue Nintu (=a deusa mãe) misture a argila, de modo que deus e homem sejam misturados juntos na argila [...] Que por esta carne de deus haja um espírito [...]”.
“Marduque, ouvindo o apelo dos deuses, resolveu criar uma obra-prima: ‘Farei canais de sangue, formarei uma ossatura e suscitarei um ser, cujo nome será: homem. Sim, vou criar um ser humano, um homem! Que sobre ele recaia o serviço dos deuses, para o bem estar deles!”. |
Na Epopéia de Atra-Hasis o homem faz parte de um universo caótico de submissão às divindades. O homem se torna súdito e escravo dos deuses, os quais o manipulam o segundo seu prazer.
Jardim – Paraíso.
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Gênesis 2,8-17. |
Mitologia Suméria.
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“8Iahweh Deus plantou um jardim em Éden, no oriente, e aí colocou o homem que modelara. 9Iahweh Deus fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, e a árvore da vida (símbolo da imortalidade) no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal. 10Um rio saía de Éden para regar o jardim e de lá se dividia formando quatro braço... 14O terceiro rio chama-se Tigre: corre pelo oriente da Assíria. O quarto rio é o Eufrates. 15Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar”. |
“Dilmun é um lugar puro, Dilmun é um lugar limpo; Dilmun é um lugar brilhante... Em Dilmun não se ouve a voz do corvo, nem o grito do milhafre (?); o leão não mata, o lobo não ataca o cordeiro; é desconhecido o cão devorador de cabritos, é desconhecido o javali (?), devorador de cereais... O doente dos olhos não diz: meus olhos estão doendo; O que está com dor de cabeça não diz: a minha cabeça está doendo; a anciã não diz: eu sou uma velha; o ancião não diz: eu sou um velho. O cantor não ergue nenhuma queixa, perto da cidade ele não faz ouvir nenhum lamento”. |
Bibliografia.
n GRELOT, Pierre. Homem, quem és? São Paulo: Paulinas, 1982 (Coleção Cadernos Bíblicos – 4).
n LORETZ, Oswald. Criação e Mito: Homem e mundo segundo os capítulos iniciais do Gênesis. Paulinas, 1979 (Col. “Biblioteca de Estudos Bíblicos”).
n SCHWANTES, Milton. Projetos de Esperança: Meditações sobre Gênesis 1-11. Paulinas, 2002 (Coleção Bíblia na mão do povo).
n A criação e o dilúvio segundo os textos do Oriente Médio. São Paulo: Paulus, 1990.