Paróquia Divino Salvador

 

19 de Setembro de 2007

 

Prof. Donizete Scardelai

 

 

 

 

Narrativas do dilúvio

 

 

 

 

             

Entre os escritos babilônicos mais antigos, temos a história de Enuma Elish sobre a “Criação do mundo[1]” pelo deus Marduk. Na narrativa do “Dilúvio”, os babilônios já estavam providos de lenda muito antiga, em cuja aventura havia a participação de um herói, chamado Guilgamesh. O dilúvio bíblico foi provavelmente inspirado na versão mais antiga, dos babilônios.

 

 

NARRAÇÃO BÍBLICA DO DILÚVIO.

 

(Gn 6,9-8,22): 613 Deus disse a Noé: ‘Chegou o fim de toda carne, eu o decidi, pois a terra está cheia de violência por causa dos homens, e eu os farei desaparecer da terra. 614Faze uma arca (TEVA) de madeira resinosa...  616Farás um teto para a arca... 617Vou enviar o dilúvio, as águas, sobre a terra, para exterminar de debaixo do céu toda carne que tiver sopro de vida: tudo que há na terra deve perecer... 74Daqui a sete dias, farei chover sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites, e farei desaparecer da superfície do solo todos os seres que fiz... 717Durante quarenta dias e quarenta noites houve o dilúvio sobre a terra; cresceram as águas e ergueram a arca, que ficou elevada acima da terra... 722Morreu tudo o que tinha um sopro de vida nas narinas... 86No fim de quarenta dias, Noé abriu a janela que fizera na arca e 87soltou o corvo, que foi e voltou, esperando que as águas secassem sobre a terra. 88Soltou, então, a pomba que estava com ele para ver se tinham diminuído as águas na superfície do solo. 89A pomba, não encontrando um lugar onde pousar as patas, voltou para ele na arca, porque havia água sobre toda a superfície da terra... 810Ele esperou ainda outros sete dias e soltou de novo pomba fora da arca. 811A pomba voltou para ele ao entardecer, e eis que ela trazia, no bico, um ramo de oliveira! Assim Noé ficou sabendo que as águas tinham escoado da superfície da terra.  812Ele esperou ainda outros sete dias e soltou a pomba, que não mais voltou para ele... 820Noé construiu um altar a Iahweh e, tomando de animais puros e de todas as aves puras, ofereceu holocaustos sobre o altar”.

NARRAÇÃO ASSÍRIA DO DILÚVIO.

 

“Sebe de bambus, sebe de bambus! Muro, muro!.. Homem de Shurupaque, filho de Ubar-Tutu, destrói a tua casa, constrói um barco! Abandona as riquezas, procura a vida! Detesta os tesouros e guarda vivo o sopro! Faze entrar no barco todas as espécies vivas! Meçam-se as dimensões desse barco que tu construirás: sejam iguais o comprimento e a largura, e tu o cobrirás com um teto como o Apsu (linhas 21-31).

... Durante um dia inteiro a tempestade se desencadeia; sopra com fúria, provoca inundação: esta, como um exército, se abate sobre os homens. Eles não se reconhecem mais uns aos outros, as pessoas não são mais discerníveis nos céus. Os deuses, amedrontados com o dilúvio, fogem, sobem até o céu de Anu... Quando chegou o sétimo dia, a tempestade diluviana tombou no combate que ela tinha sustentado como um exército: o mar se acalmou, o vento se abrandou, o dilúvio cessou. Abri uma fresta e a luz bateu em meu rosto. Olhei o tempo: o silêncio era completo, e toda a humanidade se tinha transformado em lodo; como um teto, a planície úmida se perdia de vista. Deixei-me cair e, permanecendo assentado, chorei; as lágrimas escorriam pelas minhas faces (linhas 128-138)...

    Quando chegou o sétimo dia, separei uma pomba e a soltei: a pomba partiu e voltou; não encontrando onde pousar, retornou. Separei uma andorinha e a soltei; a andorinha partiu e voltou; não encontrando onde pousar, retornou. Separei um corvo e o soltei: o corvo partiu e viu as águas secando; comeu, voou, grasnou e não retornou. Abri as portas, soltei os animais, ofereci um sacrifício... (linhas 146ss).

 

            Tevah: termo hebraico traduzido por “Arca” (Noé) e “Cesto” (Moisés – Ex 2,3).

 

 

 

Fragmentos do poema de Atra-hasis.

 

            Diálogo entre Atra-hasis e Ea sobre as instruções do dilúvio[2].

 

“[Atra-hasis] ajoelhou-se, prostrou-se, ergueu-se, abriu [a boca] e disse: ‘[Senhor], percebi que entravas; [ouvi] passos como os passos de teus pés; [Ea, Se]nhor, percebi que tu entravas; [ou]vi passos como os passos de teus pés”.

 

            Detalhes sobre o ‘barco’.

 

“Constrói um grande barco; que sua estrutura seja de junco; que seu nome seja ‘grande cargueiro’, que ele seja guardião de vida”.

 

            Um pedido de Atra-hasis.

 

“Atra-hasis abriu a boca e disse, dirigindo-se a Ea, seu Senhor: ‘Eu nunca construí um barco! Esboça [um desenho] no chão. Que eu veja o desenho [e possa construir] o barco!’ Ea traçou [um desenho] no chão”.

 

Relato sumério do dilúvio.

 

            Coluna V, linhas 201-211 (A Criação e o Dilúvio segundo os textos... p 81).

“Os maus ventos e a tempestades chegaram juntos; o dilúvio caiu com eles sobre a disputa (?) Depois que, sete dias e sete noites, o dilúvio varreu o país, depois que o mau vento atirou o cargueiro para o alto mar, Utu apareceu, projetando luz no céu e na terra. Ziusudra fez uma abertura no enorme cargueiro; o herói Utu deixou entrar sua luz dentro do grande cargueiro. Ziusudra, o rei, prostrou-se diante de Utu. O rei abate os bois, multiplica os (sacrifícios de) ovelhas”.

 

Textos anexos

 

Muitos relatos babilônicos do dilúvio foram preservados, chegando até nós nas versões suméria e acádica.  O “relato acádico é o mais antigo (tabuinha do século XVIII)” Mas, devido às suas inúmeras lacunas, por causa do estado de conservação das tabuinhas, é melhor apresentar o relato conservado na biblioteca do rei da Assíria, Assurbanipal, do século VII aC. Trata-se da 11a tabuinha que traz um relato da Epopéia de Guilgamesh. “Guilgamesh, atormentado com morte de seu amigo Enkidu e tendo partido em busca do segredo da imortalidade, chegou a um lugar situado além das águas da morte, onde Utnapishtim, o “Noé” babilônico, desfrutou da imortalidade”[3].

Veja abaixo alguns trechos da tabuinha 11, extraídos da obra A Criação e o Dilúvio segundo os textos do Oriente Médio Antigo. p. 59ss.

 

 

            Obs: nos números indicam as linhas da tabuinha 11.

 

“Homem de Shurupak, filho de Ubar-Tutu (23), passa a demolir tua casa, constrói um barco (24); renuncia à riqueza e busca a vida (25); despreza os bens e conserva a vida (26). Faze subir à barca viventes de todas as espécies (27). Que da barca que construirás (28), as dimensões se correspondam (29) [...] que deve dizer à cidade, povo e anciãos? (35) Ea abriu a boca e disse (36), dirigindo-se a mim, seu servo (37): ‘Quanto a ti, tu lhes dirás (38): pode ser que Enlil não me queira bem pessoalmente (39); não mais habitarei em vossa [cidade] (40) e sobre o solo de Enlil não mais porei os pés (41); descerei a Apsu para ali habitar com Ea, meu senhor (42). [Sobre] vós, fará chover para vós a opulência (43), quantidade de aves, cestos de peixes (44). [...] De manhã, ele fará chover doces para vós (46) e, à noite, frumento a cântaros! (47). Aos primeiros albores da manhã (48) [...] o país se reuniu (49) [...] O pobre trouxe o que era preciso (55). No quinto dia, eu tracei os contornos (56): sua superfície era de um ‘campo’, suas paredes de dez perchas de altura cada uma (57). Cada pé direito era igual a dez perchas (58). Eu dispunha suas formas, eu o desenhava (59) [...] Ao nascer do sol, comecei a emboçar com óleo (75); ao pôr-do-sol, a embarcação estava terminada! (76)... e não pararam de transportar as achas de lenha [...] Eu o carreguei com tudo o que eu tinha (80): Eu o carreguei com tudo quanto tinha em prata (81); eu o carreguei com tudo quanto tinha em ouro (82); eu o carreguei com toda espécie de tudo que tem vida (83); fiz subir na embarcação toda a minha família e contra-parentes (84); fiz subir o gado da estepe, os animais da estepe e todos os artesãos (85). Shamash fixara-me um prazo (86): ‘De manhã farei chover doces e, à noite, frumento a cântaros (87); Entra no barco e fecha a porta’ (88). Este prazo expirou (89) [...] Eu vi o aspecto do tempo (91), o tempo estava terrível para se ver (92). Entrei no barco e fechei a porta (93); ao calafetador do barco, a Puzur-Amuru, o construtor do barco (94), dei o palácio com seus bens (95). Aos primeiros albores da manhã (96), uma nuvem escura surgiu no horizonte (97) [...]. Erragl arrancou as estacas (101), Ninurta derrubou os diques (102) [...] O furor gerado por Adad cortou os céus (105); mudando em trevas tudo quanto era luz (106). [...] A arma divina passou sobre as pessoas como furacão (110). Um irmão não via mais seu irmão (111), e debaixo dos céus, ninguém, ninguém se reconhecia (112). Os deuses se amedrontaram com o dilúvio (112), afastaram-se e subiram aos céus de Anu. [...] ruge o vento; o dilúvio, a tempestade nivelam o país (128). Quando chegou o sétimo dia, a tempestade, o dilúvio, o furacão... (129) [...] o mar se acalmou; calou-se o vento mau, o dilúvio cessou (131). Eu olhava o tempo: reinava o silêncio (132) e todos os seres vivos tinham-se transformado em barro (133) [...] A embarcação acostou no monte Nicir (140); o monte Nicir segurou a embarcação e não mais a deixou mover (141) [...] Quando chegou o sétimo dia (145), fiz sair uma pomba e soltei-a (146); a pomba se foi e voltou (147): não encontrando onde pousar, voltou (148). Fiz sair uma andorinha e soltei-a (149); a andorinha se foi e voltou (150): não encontrando onde pousar, voltou (151). Fiz sair um corvo e soltei-o (152); o corvo se foi e, vendo o refluxo das águas (153), comeu, patinhou (?), crocitou, e não mais voltou (154). Fiz outros saírem em todas as direções, ofereci um sacrifício (155) [...] os deuses sentiram o bom odor (160); os deuses, à semelhança de moscas, reuniram-se em torno do sacrificador (161) [...] Os dias os quais vivo, possa eu deles sempre lembrar, jamais esquecê-los! (165) Que os deuses se aproximem da oferta derramada (166), mas que Enlil não chegue até a oferta derramada (167), porque ele não refletiu, provocou o dilúvio (168) e entregou meu povo a uma catástrofe! [...] Enlil viu a embarcação e enfureceu-se (171); cheio de rancor contra os deuses Igigu (172): ‘Alguém escapou com vida! Ninguém deveria sobreviver à catástrofe!’ (173) [174-196]”.

 

            Principais temas:

 

 

Reflexão sobre a temática do Pecado (Gn 3,1-8).

 

            A “nudez[5] simboliza o relacionamento e a intimidade com Deus, por isso a nudez só será causa de constrangimento depois que esse relacionamento é rompido. A presença da serpente simboliza a consciência do homem e da mulher. A associação da serpente com o diabo só ocorreu no século I aC (ver Sabedoria 2,24). Em Canãa a serpente estava associada ao culto pagão da fertilidade. O conflito entre a “mulher” e a “serpente” simboliza o contraste entre o ser astuto (serpente) e a ingenuidade humana (mulher). No hebraico também aparece o trocadilho de “astuto” (arum) com “nu” (arumim), para realçar a consciência da nudez do homem-mulher após a esperteza da serpente.

            O autor quer retratar a dupla experiência humana: o sentimento de “culpa” e a “vergonha”. No relato da “queda” (pecado) o que se pretende mostrar é um problema de fundo: as origens do MAL. De onde vem o mal e qual sua influência sobre os humanos? É isso que angustia a todos nós! O mal está presente no mundo, em nossas experiências diárias e nem sempre o controlamos.

            Como pessoas de fé, somos forçados a reconhecer que o mal não vem de Deus! Então, de onde vem? É ai que somos obrigados a reconhecer: Só pode vir de nós, humanos. É esse um dos problemas tratados em Gênesis.



[1] Ver os textos paralelos em P. Grelot.

[2] A criação e o dilúvio segundo os textos do Oriente Médio. P. 77.

[3] Ver os textos em A criação e o Dilúvio segundo os textos do Antigo Oriente Médio Antigo. Documentos do Mundo da Bíblia. Paulinas, p. 58ss. Ver também em P. GRELOT. Homem, quem és? Paulinas, 1982, p.62ss.

[4] A criação e o dilúvio segundo os textos do Oriente Médio Antigo. p. 59.

[5] Ver os comentários em Comentário Bíblico, Loyola, 1999, vol I, p. 61s.